sábado, 27 de agosto de 2011

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes."

Alberto Caeiro

sábado, 13 de agosto de 2011

Quem Me Dera Que Eu Fosse O Pó Da Estrada

"Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena..."
Alberto Caeiro

Números


O que fazer com esses números? Anos, datas, medidas, notas, décadas...? Esquecer, lembrar, esconder? O fato é que só podemos deixar pra trás. Como quem deixa um amigo antigo na rodoviária e vira as costas com tristeza e saudade. Assim deixamos as noites, as pessoas, que acabam virando números, contabilizadas como coisas, por vezes boas, outras nem tanto. Mais cedo mais tarde tudo acaba virando um número, uma porcentagem, uma estatística, uma distância, um número de uma página, um 3x4 amassado na carteira de alguém, um telefone, 42, 47, 55, 53.... Ah o que fazer com esses números...